A idade certa
Chego à conclusão de que nunca temos a idade que deveríamos ter para fazer aquilo que gostaríamos de fazer. Quando queremos sair à noite ou passar férias com os amigos, somos muito novos, e não nos deixam. É como quando queremos pintar o cabelo, mas somos muito novas para isso. Depois, quando fazemos umas madeixas azuis, ouvimos o célebre «Já tens idade para ter juízo». Por fim, quando o pintamos de roxo, depois de décadas de indecisão, lá vem o não menos célebre «Já não tens idade para essas coisas», e eu acrescentaria, nem idade, nem cabelo. A nossa vida nunca bate certo com a idade que temos, é como rematar à frente de uma baliza escancarada e a bola ir sempre ao poste ou à barra. Quando queria ler certos livros, e tinha tempo para o fazer, era demasiado nova para os ler; quando já podia lê-los, nem vontade nem tempo; quando tiver tempo, já não vejo nada. E isto na melhor das hipóteses, porque, como as coisas andam, não sei se não vamos ter de trabalhar até aos 80 que, como toda a gente sabe, é a idade em que toda a gente está no seu perfeito juízo.
(In As minhas (con)ficções)
Texto de Elisabete Bárbara